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Língua é identidade
li no www.overmundo.com.br/overblog/lingua-e-identidade
Tati Magalhães · Maceió (AL) · 21/5/2006 14:29 · 129 votos
Tati Magalhães

Maria Pankararu, 42 anos, natural de Taracatu, em Pernambuco. Na verdade, o nome completo é Maria das Dores de Oliveira, mas o sobrenome adotado é a marca de sua identidade étnica, e uma prova da sua personalidade e das suas escolhas. Maria é simples e forte como o nome, e o tamanho da sua simplicidade é diretamente proporcional à importância que tem hoje para os povos indígenas do Brasil. No dia 19 de abril deste ano, sua imagem estampou jornais e telejornais de todo o País. É que, nesse dia do índio, Maria escreveu seu nome na história ao ser a primeira índia brasileira a obter o mais alto grau na academia, ao defender sua tese de doutorado em lingüística, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Mas não é o fato de ser uma índia doutora que torna Maria uma referência: toda a sua busca pelo conhecimento socialmente produzido não teve um caráter de promoção pessoal, mas a possibilidade de um retorno aos povos indígenas desse País. Tanto é que sua tese, intitulada “Ofayé, a língua do povo do mel”, é um registro de uma língua que já havia sido considerada extinta, falada pelo povo de mesmo nome, localizado em Brasilândia (MS). Além disso, a professora e funcionária da Funai mostra que compromisso é a palavra-chave da sua vida: seu trabalho ultrapassa as fronteiras da academia para contribuir diretamente para a preservação da cultura de um povo o qual, atualmente, conta com apenas 46 viventes, e de uma língua que registra apenas 11 falantes. Em parceria com a professora ofayé Marilda de Sousa, Maria elaborou uma cartilha para que a língua fosse ensinada às crianças, que está em fase de experimentação, e ainda prepara um dicionário português-ofayé/ ofayé-português. Toda a pesquisa foi financiada pela Fundação Ford.

Aqui no Overmundo, mais do que versar sobre o feito de Maria, nós quisemos ouvi-la falar: sobre sua pesquisa, sobre seu povo, sobre a relação entre língua e cultura, sobre a imagem estereotipada que a sociedade brasileira construiu e ainda mantém dos índios. O resultado de quase uma hora de conversa foi resumido aqui (e pode ser lido na íntegra no banco de cultura), onde, além de conhecer um pouco da sua trajetória, o leitor vai poder compartilhar, concordar ou discordar das suas colocações, que mexem com algumas das maiores feridas nacionais: o preconceito e o (falso) protecionismo em relação aos povos indígenas e o que é ser índio hoje. Com a palavra, Maria Pankararu.

Maria, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória, o que te levou a escolher os caminhos da universidade...

Bom, vou tentar fazer um resumo. Primeiro eu fiz história em Arcoverde, por paixão mesmo. Depois eu vim para Maceió. Queria mudar de vida, ter outras perspectivas, melhorar profissionalmente, ter mais alguma coisa para poder contribuir com o meu povo. Como eu sou professora, escolhi fazer pedagogia pela Ufal. Então eu conheci as minhas orientadoras, as professoras Januacele Francisca da Costa e Adair Palácio, comecei a apresentar trabalhos com elas, a discutir questões como o caso do português falado pela minha comunidade, a me envolver na lingüística. E fui me apaixonando. E quando eu terminei a graduação, a Januacele disse: “por que você não tenta fazer um mestrado na área de lingüística?”. Aí ela me deu as orientações para eu fazer o projeto. Eu terminei o curso em 97, e em 98 eu já entrei no mestrado. Depois do mestrado eu fiquei empolgada, claro, e pensei em fazer o doutorado na área de análise e descrição de uma língua indígena brasileira, já tinha definido esse tema.

E seus trabalhos acadêmicos sempre tiveram essa ligação com a questão indígena?
Eu sempre tive essa preocupação de ou estudar mais ou fazer a análise de alguma situação de meu povo, mais particularmente... Até porque, sou professora da Funai, trabalho com educação escolar indígena, e também sou índia... Tenho a obrigação profissional e étnica de conhecer as questões indígenas. Isso eu sempre me preocupei e procurei fazer, independente da universidade.

E com relação ao seu povo, como é a sua relação com ele hoje, como foi durante esse processo...

Minha comunidade fica no alto sertão de Pernambuco, nos municípios de Petrolândia, Tacaratu e Jatobá. A população tem em torno de quatro mil indígenas na aldeia, mas os Pankararu estão muito espalhados. Minha comunidade aparentemente é uma comunidade rural como outra qualquer, mas que tem um grande diferencial: ainda são muito fortes os traços culturais. A gente tem danças, cânticos, tem vários rituais. É isso que nos torna diferentes das sociedades rurais não-indígenas. A minha comunidade tem luz, tem energia elétrica, algumas casas têm água canalizada, todas as casas são de alvenaria. Foge bastante daquele estereótipo que as pessoas têm em relação aos indígenas. E essa é uma visão errada, porque a diversidade indígena é tão grande no Brasil, que têm índios assim como o meu povo e têm tribos que ainda não tiveram nenhum contato com a sociedade nacional. O meu povo adquiriu muitos hábitos da sociedade dominante. A sociedade dominante, digo, a sociedade rural pobre, marginalizada, porque os Pankararu têm um poder aquisitivo muito baixo, têm muitas necessidades, têm problemas com a questão da terra, com a questão do atendimento à saúde, a educação ainda está muito a desejar...

E era justamente sobre as questões dos estereótipos que eu ia perguntar agora. É algo ainda muito presente na nossa sociedade, aquela coisa de que índio tem que viver isolado... E a partir do momento em que ele tem contato com outros povos, é como se ele deixasse de ser índio aos olhos das outras pessoas. Como você vê e sente isso, você que é uma índia que se diferencia de todo esse perfil?

Pois é... É uma coisa engraçada, para não dizer triste. Porque a partir do contato, o que foi feito para os índios de modo geral? Nos vestiram, nos impuseram uma outra religião e outros valores ideológicos e culturais. Assumindo parte desses valores, a gente nem é índio, do ponto de vista de algumas pessoas; e nem é branco. Dificilmente alguém ia me considerar branca. Eu tenho um monte de traços do meu povo que me identifica, que eu me identifico. E toda a sociedade, ela é dinâmica no seu processo histórico. Se você for pensar do seu ponto de vista pessoal, a sua criação, seu jeito de ser, de vestir, é diferente de 10 anos atrás. Isso é normal, o mundo está mudando. Se é natural, se é inerente às sociedades humanas mudarem, por que as sociedades indígenas têm que se manter como sociedades estáticas? Então isso é só na cabeça de algumas pessoas, que acham que o índio tem que estar lá, sempre imóvel e estático social ou historicamente falando. Vamos pensar uma situação inversa: se você for para a minha comunidade, pode até se pintar, pode dançar com a gente, mas você não vai ser índia por isso. Do mesmo modo, eu estou aqui nessa sociedade, estou na universidade, uso jeans, moro em apartamento, mas isso não tira de mim a minha essência, a condição étnica de ser índia pankararu.

Fale um pouco mais do seu trabalho, da sua tese. Como foi a sua relação com os ofayé, o contato...

Quando eu entrei no doutorado, eu não sabia que povo eu iria pesquisar. Já tinha delimitado o meu objeto de pesquisa, a descrição de uma língua indígena brasileira. O que eu queria da minha pesquisa era que fosse uma língua pouco estudada ou que não tivesse nenhum estudo, e que estivesse sendo ameaçada de extinção. E, preferencialmente, que fosse do tronco macro-jê. Aí eu participei de um encontro de técnicos da educação da Funai em Brasília e conheci o pessoal que trabalha com os índios ofayé. Os ofayé estavam em uma situação muito difícil, a língua estava muito ameaçada, precisavam de pesquisas nesse campo. E casou com o que eu queria: era uma língua e uma sociedade pouco estudadas, e o ofayé é do tronco macro-jê.

Ela já foi considerada extinta, não é?

Já, já. Tanto o povo quanto a língua foram considerados extintos. Primeiro por Darcy Ribeiro, que visitou a aldeia em 48, encontrou duas famílias de ofayé e achou que por só ter encontrado eles, culturalmente os ofayé estariam extintos. E em 68, a Sarah Gudschinsky conheceu também esse mesmo grupo e acabou enfatizando essa idéia. Só que os ofayé tinham como estratégia de sobrevivência se espalhar. Depois eles conseguiram o contato com a Funai, que foi até lá e os convidou para ir para uma outra área indígena. E eles foram bastante iludidos, porque viviam em uma situação de miséria, as terras deles foram totalmente tomadas pelos criadores de gado. Só que eles foram levados para a comunidade dos Kadiwéu, que culturalmente são povos dominadores, e foram subjugados por mais de 10 anos. Quando os ofayé deixaram o lugar, tiveram que sair fugidos. Depois disso, conseguiram parte do território. Com muita luta, depois de muito tempo debaixo de lonas... Isso o grupo que restou, né? Porque no meio do caminho morreu meio mundo de gente de fome, de doença... Aí eles conseguiram uma parte de uma fazenda, como indenização, porque a propriedade deles foi inundada por uma usina. Só que essa fazenda não tinha rio, só tinha mata, a terra era ruim para plantar. Eles eram pescadores e coletores, e ficaram em uma situação de extrema miséria. Quando eu cheguei lá para fazer a pesquisa, eles estavam nessa situação, e dependiam de cestas básicas para sobreviver. Mas no meio do caminho da minha tese, eles conseguiram retomar comprando, ainda por conta da indenização, parte do antigo território. E nesse lugar tem um riacho, e eles já têm vários projetos: estão desenvolvendo uma agricultura comunitária... a economia do ofayé é de base coletiva. Em relação à língua, quando eu cheguei, eles sabiam da necessidade da preservação, queriam isso, só que por conta dos preconceitos e da invisibilidade que até hoje os ofayé têm, tinham muitos pais que não queriam ensinar a língua para as crianças. Muitos achavam que seria mais uma barreira para aumentar o preconceito.

Mas toda esta história de sofrimento deles até pode ter criado uma certa desconfiança sobre as pessoas que vinham de fora para tentar ajudá-los. Você sentiu isso?

Senti, sim. Logo no começo. Eles eram muito desconfiados, porque muita gente vai lá fazer pesquisa com os ofayé e vai embora. E a outra coisa é que eu fui primeiro com a Funai, e a Funai foi quem os levou para os Kadiwéu, então não é bem vista. E eu sou índia, mas quem estava à frente da Funai naquela época era um índio Terena. E eu era pesquisadora, e os pesquisadores iam lá e não davam respostas nenhuma a eles, como se eles fossem meros objetos de pesquisa. Então houve uma desconfiança muito grande deles por conta de todo esse passado. Só que acabou muito rápido. Eu passei uma semana lá, conversei muito, visitei todo mundo, senti um pouco o grupo, mas também para eles me conhecerem. Tomamos muito terere e já iniciei o trabalho. Eles passaram a acreditar em mim, a confiar.

Quanto tempo você passou lá?

Uma semana nesse primeiro período. Fiz cinco viagens ao todo, em períodos variados de permanência na comunidade. O período mais longo foi dois meses e meio, porque queria conhecer como era o modo de vida dos ofayé, como era a visão de mundo, até para eu tentar entender a língua. Porque a língua está muito relacionada à sua visão de mundo, a língua diz tudo de um povo, da sua cultura, da história, dos valores... então eu queria ver e tentar entender essa relação.

Tem uma questão interessante que é como a imprensa tratou o fato de você ser a primeira índia doutora...o seu título tem um peso simbólico grande. Mas para você, o que isso representa?

Para te falar a verdade, eu fiquei um pouco assustada (risos), porque eu não imaginava que fosse dar tanta repercussão. Mas ao mesmo tempo eu reconheço que é um fato inédito no Brasil, as pessoas não são acostumadas com isso, geralmente nos vêem na posição de submissão, de passividade, de estar sempre ocupando os espaços mais inferiores da sociedade. Então acaba provocando um certo estranhamento em todo mundo. É um caminho difícil, mas eu estou muito feliz por ter conquistado esse título.

E você acha que seu caso, a inserção dos índios na academia, isso ajuda a superar aqueles estereótipos que a gente já falou?

Eu particularmente acho que ajuda. Eu acabei quebrando um modelo de índio que a mídia tenta impor, que é aquele índio que caça, pesca. São aqueles índios que têm um perfil diferente do meu. E eu não sou assim, mas eu me identifico e sou conhecida como índia. Mas, por outro lado, há muita gente que tende a não me reconhecer nessa minha identidade étnica porque eu estou assim. Não deixa de ser um preconceito. Se eu fujo à regra da imagem que outras pessoas estabeleceram, eu não deixo de ser o que eu sou na minha essência, índia, porque estou diferente. Eu acho que a sociedade brasileira precisa respeitar a diversidade cultural e lingüística que tem nesse país. Há uma tendência de homogeneizar os índios.

E sobre o retorno que foi dado à comunidade, já que você falou tanto dessa necessidade, que eles esperavam isso... Como está sendo a aplicação da sua pesquisa, como estão os seus contatos com os ofayé após a defesa da tese?

O meu trabalho teve dois objetivos: um era fazer a descrição da língua propriamente dita; e o outro é propor, a partir dos resultados da minha pesquisa, um material didático para ser usado na escola da comunidade, com a sugestão de um alfabeto. E isso a gente já começou a fazer. Tem um material que está sendo trabalhado experimentalmente por uma das minhas informantes, a professora de ofayé Marilda de Sousa. A gente está tentando analisar se as nossas sugestões são aplicáveis ou não à língua. E também foi elaborado um dicionário ofayé-português/português-ofayé, só que ainda está na questão fonética da língua. Eu acho que é um processo longo de definir. A gente dá o auxílio técnico, mas os donos da língua são o povo ofayé, então ele é quem deve definir realmente se a grafia que eu estou sugerindo é adequada, se pode ser mudada... E isso vai levar um certo tempo. E tem outra coisa: a mudança de atitude dos ofayé, eles estão mais entusiasmados. As crianças, pelo que me disse Marilda, estão muito entusiasmadas em aprender a língua. Acho que essa atitude positiva só vem fortalecer esse compromisso que eles têm de manter esse laço, essa marca tão importante de identidade étnica que é a língua. E ainda quero ir lá para apresentar meu trabalho, sentir um pouco o que o povo está achando do material, porque estou somente recebendo notícias da Marilda. Não sei se vou conseguir ir lá com tanta freqüência porque vai depender do apoio financeiro que eu tiver. Mas a gente tem como escrever, mandar material, eles mandarem material para mim. Essa comunicação vai continuar existindo sim. Eles querem, e eu também.
 
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overponto
Tati Magalhães

Maria Pankararu, 42 anos, natural de Taracatu, em Pernambuco. Na verdade, o nome completo é Maria das Dores de Oliveira, mas o sobrenome adotado é a marca de sua identidade étnica, e uma prova da sua personalidade e das suas escolhas. Maria é simples e forte como o nome, e o tamanho da sua simplicidade é diretamente proporcional à importância que tem hoje para os povos indígenas do Brasil. No dia 19 de abril deste ano, sua imagem estampou jornais e telejornais de todo o País. É que, nesse dia do índio, Maria escreveu seu nome na história ao ser a primeira índia brasileira a obter o mais alto grau na academia, ao defender sua tese de doutorado em lingüística, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Mas não é o fato de ser uma índia doutora que torna Maria uma referência: toda a sua busca pelo conhecimento socialmente produzido não teve um caráter de promoção pessoal, mas a possibilidade de um retorno aos povos indígenas desse País. Tanto é que sua tese, intitulada “Ofayé, a língua do povo do mel”, é um registro de uma língua que já havia sido considerada extinta, falada pelo povo de mesmo nome, localizado em Brasilândia (MS). Além disso, a professora e funcionária da Funai mostra que compromisso é a palavra-chave da sua vida: seu trabalho ultrapassa as fronteiras da academia para contribuir diretamente para a preservação da cultura de um povo o qual, atualmente, conta com apenas 46 viventes, e de uma língua que registra apenas 11 falantes. Em parceria com a professora ofayé Marilda de Sousa, Maria elaborou uma cartilha para que a língua fosse ensinada às crianças, que está em fase de experimentação, e ainda prepara um dicionário português-ofayé/ ofayé-português. Toda a pesquisa foi financiada pela Fundação Ford.

Aqui no Overmundo, mais do que versar sobre o feito de Maria, nós quisemos ouvi-la falar: sobre sua pesquisa, sobre seu povo, sobre a relação entre língua e cultura, sobre a imagem estereotipada que a sociedade brasileira construiu e ainda mantém dos índios. O resultado de quase uma hora de conversa foi resumido aqui (e pode ser lido na íntegra no banco de cultura), onde, além de conhecer um pouco da sua trajetória, o leitor vai poder compartilhar, concordar ou discordar das suas colocações, que mexem com algumas das maiores feridas nacionais: o preconceito e o (falso) protecionismo em relação aos povos indígenas e o que é ser índio hoje. Com a palavra, Maria Pankararu.

Maria, eu queria que você falasse um pouco da sua trajetória, o que te levou a escolher os caminhos da universidade...

Bom, vou tentar fazer um resumo. Primeiro eu fiz história em Arcoverde, por paixão mesmo. Depois eu vim para Maceió. Queria mudar de vida, ter outras perspectivas, melhorar profissionalmente, ter mais alguma coisa para poder contribuir com o meu povo. Como eu sou professora, escolhi fazer pedagogia pela Ufal. Então eu conheci as minhas orientadoras, as professoras Januacele Francisca da Costa e Adair Palácio, comecei a apresentar trabalhos com elas, a discutir questões como o caso do português falado pela minha comunidade, a me envolver na lingüística. E fui me apaixonando. E quando eu terminei a graduação, a Januacele disse: “por que você não tenta fazer um mestrado na área de lingüística?”. Aí ela me deu as orientações para eu fazer o projeto. Eu terminei o curso em 97, e em 98 eu já entrei no mestrado. Depois do mestrado eu fiquei empolgada, claro, e pensei em fazer o doutorado na área de análise e descrição de uma língua indígena brasileira, já tinha definido esse tema.

E seus trabalhos acadêmicos sempre tiveram essa ligação com a questão indígena?

Eu sempre tive essa preocupação de ou estudar mais ou fazer a análise de alguma situação de meu povo, mais particularmente... Até porque, sou professora da Funai, trabalho com educação escolar indígena, e também sou índia... Tenho a obrigação profissional e étnica de conhecer as questões indígenas. Isso eu sempre me preocupei e procurei fazer, independente da universidade.

E com relação ao seu povo, como é a sua relação com ele hoje, como foi durante esse processo...

Minha comunidade fica no alto sertão de Pernambuco, nos municípios de Petrolândia, Tacaratu e Jatobá. A população tem em torno de quatro mil indígenas na aldeia, mas os Pankararu estão muito espalhados. Minha comunidade aparentemente é uma comunidade rural como outra qualquer, mas que tem um grande diferencial: ainda são muito fortes os traços culturais. A gente tem danças, cânticos, tem vários rituais. É isso que nos torna diferentes das sociedades rurais não-indígenas. A minha comunidade tem luz, tem energia elétrica, algumas casas têm água canalizada, todas as casas são de alvenaria. Foge bastante daquele estereótipo que as pessoas têm em relação aos indígenas. E essa é uma visão errada, porque a diversidade indígena é tão grande no Brasil, que têm índios assim como o meu povo e têm tribos que ainda não tiveram nenhum contato com a sociedade nacional. O meu povo adquiriu muitos hábitos da sociedade dominante. A sociedade dominante, digo, a sociedade rural pobre, marginalizada, porque os Pankararu têm um poder aquisitivo muito baixo, têm muitas necessidades, têm problemas com a questão da terra, com a questão do atendimento à saúde, a educação ainda está muito a desejar...

E era justamente sobre as questões dos estereótipos que eu ia perguntar agora. É algo ainda muito presente na nossa sociedade, aquela coisa de que índio tem que viver isolado... E a partir do momento em que ele tem contato com outros povos, é como se ele deixasse de ser índio aos olhos das outras pessoas. Como você vê e sente isso, você que é uma índia que se diferencia de todo esse perfil?

Pois é... É uma coisa engraçada, para não dizer triste. Porque a partir do contato, o que foi feito para os índios de modo geral? Nos vestiram, nos impuseram uma outra religião e outros valores ideológicos e culturais. Assumindo parte desses valores, a gente nem é índio, do ponto de vista de algumas pessoas; e nem é branco. Dificilmente alguém ia me considerar branca. Eu tenho um monte de traços do meu povo que me identifica, que eu me identifico. E toda a sociedade, ela é dinâmica no seu processo histórico. Se você for pensar do seu ponto de vista pessoal, a sua criação, seu jeito de ser, de vestir, é diferente de 10 anos atrás. Isso é normal, o mundo está mudando. Se é natural, se é inerente às sociedades humanas mudarem, por que as sociedades indígenas têm que se manter como sociedades estáticas? Então isso é só na cabeça de algumas pessoas, que acham que o índio tem que estar lá, sempre imóvel e estático social ou historicamente falando. Vamos pensar uma situação inversa: se você for para a minha comunidade, pode até se pintar, pode dançar com a gente, mas você não vai ser índia por isso. Do mesmo modo, eu estou aqui nessa sociedade, estou na universidade, uso jeans, moro em apartamento, mas isso não tira de mim a minha essência, a condição étnica de ser índia pankararu.

Fale um pouco mais do seu trabalho, da sua tese. Como foi a sua relação com os ofayé, o contato...

Quando eu entrei no doutorado, eu não sabia que povo eu iria pesquisar. Já tinha delimitado o meu objeto de pesquisa, a descrição de uma língua indígena brasileira. O que eu queria da minha pesquisa era que fosse uma língua pouco estudada ou que não tivesse nenhum estudo, e que estivesse sendo ameaçada de extinção. E, preferencialmente, que fosse do tronco macro-jê. Aí eu participei de um encontro de técnicos da educação da Funai em Brasília e conheci o pessoal que trabalha com os índios ofayé. Os ofayé estavam em uma situação muito difícil, a língua estava muito ameaçada, precisavam de pesquisas nesse campo. E casou com o que eu queria: era uma língua e uma sociedade pouco estudadas, e o ofayé é do tronco macro-jê.

Ela já foi considerada extinta, não é?

Já, já. Tanto o povo quanto a língua foram considerados extintos. Primeiro por Darcy Ribeiro, que visitou a aldeia em 48, encontrou duas famílias de ofayé e achou que por só ter encontrado eles, culturalmente os ofayé estariam extintos. E em 68, a Sarah Gudschinsky conheceu também esse mesmo grupo e acabou enfatizando essa idéia. Só que os ofayé tinham como estratégia de sobrevivência se espalhar. Depois eles conseguiram o contato com a Funai, que foi até lá e os convidou para ir para uma outra área indígena. E eles foram bastante iludidos, porque viviam em uma situação de miséria, as terras deles foram totalmente tomadas pelos criadores de gado. Só que eles foram levados para a comunidade dos Kadiwéu, que culturalmente são povos dominadores, e foram subjugados por mais de 10 anos. Quando os ofayé deixaram o lugar, tiveram que sair fugidos. Depois disso, conseguiram parte do território. Com muita luta, depois de muito tempo debaixo de lonas... Isso o grupo que restou, né? Porque no meio do caminho morreu meio mundo de gente de fome, de doença... Aí eles conseguiram uma parte de uma fazenda, como indenização, porque a propriedade deles foi inundada por uma usina. Só que essa fazenda não tinha rio, só tinha mata, a terra era ruim para plantar. Eles eram pescadores e coletores, e ficaram em uma situação de extrema miséria. Quando eu cheguei lá para fazer a pesquisa, eles estavam nessa situação, e dependiam de cestas básicas para sobreviver. Mas no meio do caminho da minha tese, eles conseguiram retomar comprando, ainda por conta da indenização, parte do antigo território. E nesse lugar tem um riacho, e eles já têm vários projetos: estão desenvolvendo uma agricultura comunitária... a economia do ofayé é de base coletiva. Em relação à língua, quando eu cheguei, eles sabiam da necessidade da preservação, queriam isso, só que por conta dos preconceitos e da invisibilidade que até hoje os ofayé têm, tinham muitos pais que não queriam ensinar a língua para as crianças. Muitos achavam que seria mais uma barreira para aumentar o preconceito.

Mas toda esta história de sofrimento deles até pode ter criado uma certa desconfiança sobre as pessoas que vinham de fora para tentar ajudá-los. Você sentiu isso?

Senti, sim. Logo no começo. Eles eram muito desconfiados, porque muita gente vai lá fazer pesquisa com os ofayé e vai embora. E a outra coisa é que eu fui primeiro com a Funai, e a Funai foi quem os levou para os Kadiwéu, então não é bem vista. E eu sou índia, mas quem estava à frente da Funai naquela época era um índio Terena. E eu era pesquisadora, e os pesquisadores iam lá e não davam respostas nenhuma a eles, como se eles fossem meros objetos de pesquisa. Então houve uma desconfiança muito grande deles por conta de todo esse passado. Só que acabou muito rápido. Eu passei uma semana lá, conversei muito, visitei todo mundo, senti um pouco o grupo, mas também para eles me conhecerem. Tomamos muito terere e já iniciei o trabalho. Eles passaram a acreditar em mim, a confiar.

Quanto tempo você passou lá?

Uma semana nesse primeiro período. Fiz cinco viagens ao todo, em períodos variados de permanência na comunidade. O período mais longo foi dois meses e meio, porque queria conhecer como era o modo de vida dos ofayé, como era a visão de mundo, até para eu tentar entender a língua. Porque a língua está muito relacionada à sua visão de mundo, a língua diz tudo de um povo, da sua cultura, da história, dos valores... então eu queria ver e tentar entender essa relação.

Tem uma questão interessante que é como a imprensa tratou o fato de você ser a primeira índia doutora...o seu título tem um peso simbólico grande. Mas para você, o que isso representa?

Para te falar a verdade, eu fiquei um pouco assustada (risos), porque eu não imaginava que fosse dar tanta repercussão. Mas ao mesmo tempo eu reconheço que é um fato inédito no Brasil, as pessoas não são acostumadas com isso, geralmente nos vêem na posição de submissão, de passividade, de estar sempre ocupando os espaços mais inferiores da sociedade. Então acaba provocando um certo estranhamento em todo mundo. É um caminho difícil, mas eu estou muito feliz por ter conquistado esse título.

E você acha que seu caso, a inserção dos índios na academia, isso ajuda a superar aqueles estereótipos que a gente já falou?

Eu particularmente acho que ajuda. Eu acabei quebrando um modelo de índio que a mídia tenta impor, que é aquele índio que caça, pesca. São aqueles índios que têm um perfil diferente do meu. E eu não sou assim, mas eu me identifico e sou conhecida como índia. Mas, por outro lado, há muita gente que tende a não me reconhecer nessa minha identidade étnica porque eu estou assim. Não deixa de ser um preconceito. Se eu fujo à regra da imagem que outras pessoas estabeleceram, eu não deixo de ser o que eu sou na minha essência, índia, porque estou diferente. Eu acho que a sociedade brasileira precisa respeitar a diversidade cultural e lingüística que tem nesse país. Há uma tendência de homogeneizar os índios.

E sobre o retorno que foi dado à comunidade, já que você falou tanto dessa necessidade, que eles esperavam isso... Como está sendo a aplicação da sua pesquisa, como estão os seus contatos com os ofayé após a defesa da tese?

O meu trabalho teve dois objetivos: um era fazer a descrição da língua propriamente dita; e o outro é propor, a partir dos resultados da minha pesquisa, um material didático para ser usado na escola da comunidade, com a sugestão de um alfabeto. E isso a gente já começou a fazer. Tem um material que está sendo trabalhado experimentalmente por uma das minhas informantes, a professora de ofayé Marilda de Sousa. A gente está tentando analisar se as nossas sugestões são aplicáveis ou não à língua. E também foi elaborado um dicionário ofayé-português/português-ofayé, só que ainda está na questão fonética da língua. Eu acho que é um processo longo de definir. A gente dá o auxílio técnico, mas os donos da língua são o povo ofayé, então ele é quem deve definir realmente se a grafia que eu estou sugerindo é adequada, se pode ser mudada... E isso vai levar um certo tempo. E tem outra coisa: a mudança de atitude dos ofayé, eles estão mais entusiasmados. As crianças, pelo que me disse Marilda, estão muito entusiasmadas em aprender a língua. Acho que essa atitude positiva só vem fortalecer esse compromisso que eles têm de manter esse laço, essa marca tão importante de identidade étnica que é a língua. E ainda quero ir lá para apresentar meu trabalho, sentir um pouco o que o povo está achando do material, porque estou somente recebendo notícias da Marilda. Não sei se vou conseguir ir lá com tanta freqüência porque vai depender do apoio financeiro que eu tiver. Mas a gente tem como escrever, mandar material, eles mandarem material para mim. Essa comunicação vai continuar existindo sim. Eles querem, e eu também.
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Ter, 8 de Mai de 2007 11:05 pm

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